terça-feira, novembro 01, 2011

O último Domingo de Outubro




Domingo passado foi dia de ir à Lousã fazer aquilo que mais gosto. Não trabalhar. Até poderia ser o facto de andar de bicicleta que me persuadisse a levantar cedo e ir até à Serra, mas eu não andava de bike à tanto tempo que sinceramente nem me lembrava ao que é que sabia.

Assim, o Miguel lançou o mote para o último Domingo de Outubro, e parece-me a mim que o homem tem dotes de bruxedo. Após uma semana de chuva intensa, o sol brilhou sem parar 6ªf, sábado e domingo, o que nos proporcionou um dia excelente com condições de terreno perfeitas para a prática do Dónil.
Depois de uma guerra acesa no Facebook e duzentos e não sei quantos comentários depois lá saiu o belo do programa para a Road Trip. Pelo meio o Marco e o Palito em vez de trabalharem como as pessoas perdiam tardes e noites numa disputa cibernética acerca de quem é que seria o redactor de comentários centenários.
Mais uma vez, tive de ser eu com a minha panóplia de contactos internacionais, a tratar dos pormenores desta viagem. Liguei para os melhores clubes internacionais, Syndicate, Animal, Sporting, Clube do Tojal, mas decidi-me pelo Montanha Clube para assegurar os transportes do dia. Revelou-se uma grande contratação mas adiante falaremos disso.

Marcou-se assim a concentração em minha casa às 06h30 da matina. Eu, aproveitando o facto de o GMT atrasar, fui até ao Clube do Tojal para beber um portinho antes de ir dormir. Obviamente que o resultado foi aquele que me vem acontecendo há uns anos a esta parte: saí de lá eram 3h da manhã já da hora nova e tinha bebido um pouco mais que um copinho. Nada de grave, 3h15 depois lá estava eu de pé e a suspirar por começar a descer. A malta foi chegando aos poucos, carregamos as bikes e as tralhas na carrinha e lá fomos nós os 8 sentados nos 6 lugares da carrinha. De referir que até Leiria fiz a viagem apenas com meio cu sentado, sendo que o outro meio ia de asa delta. Atingindo o primeiro objectivo, Repsol de Leiria, já lá estava o Mangas impaciente à espera. Foi só o tempo de abastecer e tentar beber um café, isto porque o consegui entornar quase todo no chão da carrinha. Molestado com a situação resolvi fazer a viagem na companhia do Rodney e do Rui na carripana do Marco. Uma hora e quinze minutos depois já tínhamos atingido o 2º objectivo, a Lousã, e tudo dentro do horário estabelecido. Foi altura então de esticar as pernas e invadir a pastelaria que, acabada de abrir levou logo com 9 terroristas aos berros. Tomado o pequeno-almoço composto à base de sandes de manteiga, perdão, pão com manteiga, era a vez do 3º objectivo, o Terreiro das Bruxas. Equipar, descomprimir etc e eis que aparece o nosso shutle, motorista e guia. O motorista, chamava-se Xico e ostentava orgulhosamente uma t-shirt com um desenho de um parafuso que dizia “eu quero é porcas”. Não sei porquê, mas adivinhei logo algo de muito especial naquele senhor. Logo nas primeiras conversas, calhou falarmos do pequeno almoço e na pastelaria, ao que ele retorquiu: “ Bolinhos?! Nã haviam era de ter parado na Repsol para comer uma sandes de leitão e beber uma cuca que vinham para aqui com um peito”…. Nesta altura já considerava este senhor um amigo. O resto do dia, a conversa girou quase sempre à volta de temas interessantes, ora as mulheres ora as mulheres ora as mulheres…. Falamos também de bancárias e cortinados, tendo ficado decidido que o Xico iria ser o Xico dos cortinados, por razões que só alguns conhecem. No meio destas coisas todas, íamos nós descendo e aproveitando aqueles enormes e espectaculares trilhos. Obviamente que eu após 3 descidas estava pronto para ir pra caminha, mas fui-me aguentando. Experimentamos uns trilhos novos, bastante espectaculares graças ao guia que ninguém queria contratar, mas que eu insisti. Um abraço para o Maurício. Pelo caminho iam surgindo sempre situações engraçadas como é exemplo o esforço de um homem a tentar acender um cigarro recorrendo a ligação directa numa carrinha oscilante. Só visto porque contado não dá pra rir. Mais ou menos a meio da manhã, decidiu-se por unanimidade relativa que iríamos descer do Trevim, ex libris de qualquer visita à Lousã. A caminho do 4º objectivo, e na viagem até ao Trevim, eu fui na cabine da carrinha a conversar sobre mulheres e cortinados com o Xico, sendo que toda a tropa ia montada cá atrás. E como a tropa é composta por pessoas malévolas, lembraram-se de esvaziar um pneu de uma bike ao calhas. E assim ao calhas, calhou a minha. Ora eu, cheio de alegria por estar no Trevim, vou rapidamente tirar a Massi, que de resto estava a estrear nesse dia, para posar na foto de grupo. Eis que se abate sobre mim a tragédia e o pesadelo. Estava no Trevim e tinha um pneu irremediavelmente furado. Estava no Trevim e teria de voltar de carrinha sem poder descer. Com um sentimento de quem perdeu um naco de presunto numa tarde de muita fome, deitei-me na estrada num pranto iminente, já a pensar em assassinar algum dos meus amigos só para lhe ficar com a bike por meia hora. Eis que, a única pessoa racional e com sentimentos naquele grupo se ergue e diz: “Mangas, agarra-te à bomba e enche o pneu que isso passa”. Abateu-se sobre mim a alegria, misturada com a indignação. Os meus comparsas tinham-me pregado uma partida daquelas e estavam num total fartote de rir à conta da minha desolação e tristeza. Pronto, lá se resolveu a coisa e eu, sem descobrir o mentor de tal sucedâneo arranquei já feliz da vida Trevim abaixo. Foi a descida mais espectacular que fiz em vários anos. Já não sabia como era andar de bicicleta mas redescobri da melhor maneira e digo-vos que sabe muito bem.
Cheios de satisfação arrancamos para a última descida do dia, um set completo entre Candal e Cacilhas. Ora foi então neste set, que Deus todo poderoso resolveu castigar o cabecilhas do grupo de mal feitores que me tinham esvaziado a roda, e coincidência ou não, o Marco furou a meio da descida, tendo sido remetido directamente para Cacilhas pela estrada de alcatrão. Ah pois é.

Terminada a manhã de descidas, era a vez do 5º objectivo, o tão esperado almoço. Lá nos desequipamos na Lousã, onde mais uma vez andavam 7 gajos em cuecas no meio da vila, seguindo rapidamente para o restaurante da Dª Maria para comer travessas e travessas de vitela e lombo de porco. Belo repasto o nosso. Barriga cheia era hora de pagar a conta, o que se revelou algo problemático pois a Dª Maria entrou no meu jogo psicológico e a conta que seria de 8,5€ por pessoa (11 pessoas ao almoço) custou numa primeira situação 112€ acabando por ficar estabelecido o preço nos 90€. Negócio espectacular.

Arrecadou-se a malta nas viaturas e constatamos passado uns km que eu não sou o único gajo a perder-me (sim perdi-me outra vez no Domingo mas foi só por 2 minutos) o Mangas decidiu que bom, bom era irmos virar a Coimbra. Restabelecida a rota chegamos a casa, atingindo o 6º objectivo em segurança e na memória (pelo menos na minha) ficou um dos melhores dias de sempre em cima de uma bicicleta. Logicamente que nada disto teria sido possível sem a companhia do Marco, Miguel, Rodney, Palito, Puto, Rui, Faísca e mulher. A todos agradeço o facto de estar hoje sentado no sofá que nem um velho de oitenta anos que não se consegue mexer mas que está feliz e contente.

Aguardo ansiosamente pela próxima.

Custos da Road Trip por pessoa: ´
Gasóleo: 7€
Vai Vem Serrano: 8€
Almoço: 10€ (pagamos orgulhosamente o almoço ao staff do Montanha Clube)

Por 25€ não sei como hei-de passar um dia melhor que este.

(Este artigo não foi nem nunca há-de ser escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)